Maio de 2026 é um mês de viradas para o Brasil no UFC. Com três eventos internacionais em três continentes diferentes, os lutadores verde-amarelos terão de desatar nós táticos complexos para sair do octógono com a mão erguida. Não basta mais confiar apenas no instinto ou na força bruta; o jogo evoluiu, e a teoria da otimização — uma aplicação dos princípios GTO (Game Theory Optimal) ao MMA — oferece as chaves que abrem essas fechaduras.
Nesta análise, vamos mergulhar em cada um dos combates mais importantes dos brasileiros nessas três noites: o UFC Perth (2 de maio), o UFC Vegas 117 (23 de maio) e o UFC Macau (30 de maio). Vamos identificar qual é o caminho mais equilibrado para vencer, onde estão os desequilíbrios que eles podem explorar e onde o “range” do adversário precisa ser respeitado.
UFC Perth (2 de Maio): Carlos Prates — O Jogo de Xadrez Contra Jack Della Maddalena
O duelo principal do UFC Perth coloca frente a frente o brasileiro Carlos Prates (5º do ranking meio-médio) e o ex-campeão Jack Della Maddalena (1º). Uma luta que, à primeira vista, parece um choque de estilos — mas que, sob a ótica GTO, é um estudo de ranges.
O Range de Maddalena
Della Maddalena é um striker de alto volume com um jab afiado, excelente footwork e defesa de quedas de elite (85% de sucesso). Ele opera em um ritmo constante, raramente se expõe demais e força o adversário a persegui-lo. Seu range de golpes no boxe é amplo: ele usa constantemente o jab para medir a distância, o cruzado de direita como arma de contenção e o uppercut de esquerda quando a distância se fecha. No chão, ele é um especialista em se levantar rapidamente e não oferece muitas ameaças de finalização — seu jogo de solo é mais reativo.
Onde está o desequilíbrio? Maddalena sofre mais contra strikers que mudam o nível de ataque e ameaçam quedas de forma imprevisível. Sua defesa de queda é alta porque ele geralmente a utiliza contra wrestlers puros. Contra um adversário que mescla golpes contundentes com entradas de queda críveis, seu sistema defensivo pode entrar em conflito.
As Chaves GTO para Carlos Prates
1. Abertura com overhands e low kicks (nível 1 de ataque). Prates é um nocauteador de um golpe só. Ele precisa estabelecer a ameaça da mão direita logo cedo, forçando Maddalena a circular para o lado do poder. Ao mesmo tempo, chutes baixos constantes vão minar a base móvel do australiano.
2. A ameaça da queda como ferramenta de blefe (nível 2). O princípio GTO aqui é a polarização: Prates deve mostrar, duas ou três vezes nos primeiros rounds, tentativas genuínas de queda — single legs ou double legs —, mesmo que elas sejam defendidas. Isso planta uma semente na mente de Maddalena. Quando Prates, nos rounds finais, ameaçar o nível e subir com um cruzado, o australiano estará hesitante.
3. Contra-ataque no clinch. Maddalena gosta de sair do clinch com joelhadas no corpo. Prates pode neutralizar isso usando o underhook e girando para as costas, gerando raspagens ou quedas de judô. Não precisa finalizar; posições de controle bastam para roubar rounds.
4. Gerenciamento de ritmo: controle do centro, mas sem perseguir. O erro mais comum que um nocauteador brasileiro comete é perseguir o oponente quando ele recua. Prates deve manter a calma, cortar o octógono com ângulos laterais (footwork de pivô) e obrigar Maddalena a se mover lateralmente para fora de sua zona de conforto.
Resultado esperado: Se Prates executar esse plano misto — chutes baixos, ameaças de queda e explosões de cruzado a partir do blefe —, Maddalena terá de enfrentar um adversário imprevisível, e as janelas para os contra-ataques do australiano diminuirão. A vitória de Prates viria por nocaute no terceiro ou quarto round, ou por decisão unânime se ele for paciente.
UFC Vegas 117 (23 de Maio): Michel Pereira & Norma Dumont — Reequilíbrio Tático
O UFC Vegas 117 traz dois brasileiros em situações opostas: Michel Pereira, o “Paraense Voador”, tenta se firmar no topo dos médios; Norma Dumont busca a redenção nos galos. Ambos enfrentam estilos que exigem ajustes cirúrgicos.
Michel Pereira vs. Brendan Allen
Pereira é um turbilhão de criatividade — golpes rodados, joelhadas voadoras, capoeira. Mas enfrenta Brendan Allen, um grappler de alto nível com wrestling agressivo e finalizações perigosas no chão. O range de Allen é claro: ele quer encurtar, levar para o solo e caçar o pescoço ou um armlock.
Chaves GTO para Michel Pereira:
- Defesa de queda e levantada imediata (scramble). A prioridade número um é não passar muito tempo no chão. Pereira precisa treinar exaustivamente o “get-up” — a arte de se levantar assim que for derrubado, usando a grade a seu favor. Uma vez em pé, ele precisa manter a distância com chutes frontais e jab.
- Ataque de longa distância: chutes altos e laterais. A envergadura de Pereira é ligeiramente maior. Ele deve manter Allen na ponta dos seus chutes, impedindo a entrada. O momento mais perigoso é quando Allen sai de uma combinação de jab e mergulha; Pereira deve, nesse instante, lançar um joelhada ao corpo ou um uppercut, que são as armas ideais contra o takedown.
- Não se empolgar no solo. Se uma queda for defendida e Pereira ficar por cima, ele não deve tentar ground-and-pound arriscado. O ideal é manter a posição, mostrar controle, e voltar a ficar em pé se a oportunidade de finalização não for clara.
- Gerenciamento de gás. Pereira tem histórico de cansar em lutas de três rounds. Com o jogo em altitude ou em ritmo intenso, ele precisa dosar os movimentos acrobáticos e investir em um ritmo mais linear e econômico.
Resultado esperado: Se conseguir manter a luta em pé por 60-70% do tempo, Michel Pereira pode nocautear ou vencer por pontos ao frustrar o wrestling de Allen e contra-atacar com precisão.
Norma Dumont vs. Joselyne Edwards (Revanche Tardia)
Depois da derrota no UFC Vegas 116 em abril, Norma Dumont tem a chance imediata de se redimir contra a mesma adversária. A luta anterior mostrou que Dumont foi superada no volume de golpes e na movimentação lateral.
Chaves GTO para Norma Dumont:
- Jab e footwork lateral como base. O jab de Dumont precisa ser o pilar da sua estratégia. Ela deve usá-lo para interromper o avanço de Edwards e, ao mesmo tempo, mover-se lateralmente para a esquerda — o lado cego da adversária —, escapando das combinações.
- Clinch seletivo, não como plano A. Dumont é forte no clinch, mas Edwards defendeu bem essas situações. A brasileira deve usar o clinch como resposta a um soco que não encaixou, não como um destino programado. Cada vez que ela tentar o clinch sem configurar, será um desperdício de energia.
- Chutes baixos e frontais para minar a base. Edwards é rápida, mas sua base pode ser afetada por chutes repetidos na canela e no quadril. Isso diminuirá sua capacidade de explosão.
- Defesa de quedas impecável. Na primeira luta, Edwards não buscou tanto o chão, mas pode tentar surpreender. Dumont deve treinar a defesa de takedown de forma reativa.
Resultado esperado: Uma Dumont mais paciente, usando o jab, o footwork e os chutes baixos, pode vencer por decisão unânime ou dividida, sem se desgastar em clinches infrutíferos.
UFC Macau (30 de Maio): Deiveson Figueiredo e Tallison Teixeira — A Experiência e a Potência
O UFC Macau fecha o mês com dois brasileiros em situações de alto risco: Deiveson Figueiredo enfrenta o chinês Song Yadong nos galos, e Tallison Teixeira encara o russo Sergei Pavlovich nos pesados.
Deiveson Figueiredo vs. Song Yadong
Figueiredo é um ex-campeão de um poder de nocaute devastador e um jogo de chão perigoso. No entanto, sobe para os galos enfrentando um striker de trocação densa e movimentação circular. Song Yadong é um boxeador agressivo que avança em linha reta, combinando jab, cruzado e uppercut.
Chaves GTO para Deiveson Figueiredo:
- Paciência e leitura no primeiro round. Figueiredo não pode se deixar levar pela pressão inicial de Song. Ele deve usar o primeiro round para ler o timing do adversário, testar o alcance com jabs duplos e provocar o overhand direito, que é o golpe mais poderoso de Song, mas também o que mais o deixa exposto.
- Atenção ao jab duplo e aos chutes baixos. Assim como em sua carreira nos moscas, Figueiredo precisa estabelecer o jab duplo para fechar a distância e, em seguida, disparar seu cruzado de direita. Chutes baixos na perna dianteira de Song vão tirar sua potência de giro.
- A trocação na curta distância: cotovelos e joelhadas. Song gosta do boxe de média distância. Figueiredo deve buscar a curta distância, onde seus cotovelos e joelhadas no clinch podem causar cortes e desorganizar o ritmo chinês.
- A ameaça da queda como último recurso, não como primeira opção. Song tem boa defesa de quedas. Figueiredo não pode gastar energia com tentativas de queda sem um setup de golpes. O wrestling deve vir apenas como uma surpresa após combinações de socos, não como um plano principal. Se conseguir derrubar, o jogo de transição de Figueiredo é letal.
Resultado esperado: Se Figueiredo mantiver a paciência, o jab duplo e os chutes baixos funcionarem, ele pode nocautear Song no segundo ou terceiro round com um cruzado de encontro. A luta tem tudo para ser a “Luta da Noite”.
Tallison Teixeira vs. Sergei Pavlovich
Dois gigantes. Teixeira (1,98 m) é um striker em evolução, com poder bruto nas mãos; Pavlovich é um boxeador pesado e experiente, que nocauteou a maioria de suas vítimas com um-dois diretos.
Chaves GTO para Tallison Teixeira:
- Controle da distância: usar a envergadura. Teixeira tem alcance superior; deve usar o jab com insistência, mantendo Pavlovich na ponta do seu soco. Chutes frontais no abdômen também ajudarão a evitar que o russo se aproxime.
- Movimentação lateral e trocação em ângulo. Pavlovich marcha para a frente. Teixeira não pode ficar parado na frente dele. Deve se mover lateralmente para a direita, forçando Pavlovich a girar e a se reposicionar — momento em que estará vulnerável a overhands de esquerda (se Teixeira for canhoto) ou chutes altos.
- Não aceitar a troca franca no centro. A menos que Teixeira esteja totalmente confiante, evitar a trocação no centro do octógono nos primeiros dois minutos de cada round. Preferir contra-ataques e combinações curtas de dois ou três golpes.
- Caso a luta vá para o chão: Teixeira tem background de jiu-jitsu. Se Pavlovich o derrubar, a calma e a busca por raspagens ou uma guilhotina podem virar a luta. Mas o objetivo principal é permanecer em pé.
Resultado esperado: Uma vitória de Teixeira passaria por um jogo inteligente de paciência e explosões pontuais. Pavlovich pode ser pego em um descuido; se Teixeira conectar um cruzado bem colocado no momento certo, pode vencer por nocaute no segundo round.
Conclusão: A Nova Geração do MMA Brasileiro Pensa Antes de Atacar
Os brasileiros que estarão em ação em maio de 2026 não são apenas lutadores talentosos; são atletas que, se seguirem as chaves táticas discutidas aqui, podem transformar noites difíceis em vitórias incontestáveis. O GTO não é uma camisa de força matemática — é a disciplina de reconhecer onde está o seu risco, onde está a sua vantagem e como misturar os dois de forma a tornar-se imprevisível sem perder a segurança.
Carlos Prates, Michel Pereira, Norma Dumont, Deiveson Figueiredo e Tallison Teixeira têm em suas mãos (e em seus córneres) a oportunidade de mostrar que o Brasil não é só emoção, mas também inteligência. Que os córneres falem a língua dos dados e que os lutadores executem o plano. A vitória virá como consequência.
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