O Brasil é uma potência histórica no Ultimate Fighting Championship. De Royce Gracie a Anderson Silva, de José Aldo a Amanda Nunes, a trajetória verde‑amarela no octógono mais famoso do mundo é recheada de cinturões, nocautes e noites memoráveis. Mas, nos últimos anos, uma safra de tropeços previsíveis – e evitáveis – tirou vitórias importantes dos nossos atletas. Muito além do talento, é a repetição de certos erros que está sabotando o Esquadrão Brasileiro no UFC.
O mês de maio de 2026 oferece uma nova série de oportunidades para reescrever essa história. Com Carlos Prates no UFC Perth, Marco Túlio no UFC 328, Philipe Lins e Júnior Cigano no evento histórico da Netflix, e Deiveson Figueiredo no UFC Macau, nunca foi tão urgente corrigir essas falhas. Este artigo compila os tropeços táticos, estratégicos e mentais mais comuns dos brasileiros e aponta o caminho para um mês de redenção.
Erro 1: Dependência Excessiva do Jiu‑Jitsu em Lutas de Baixo Nível
O Erro
O Brasil ainda é o berço da arte suave, mas a ideia de que “o chão é o nosso mar” pode se transformar em um chamado fatal contra strikers modernos. Lutadores brasileiros de divisões inferiores frequentemente buscam a queda de forma previsível e repetitiva, gastando energia preciosa e se expondo a contragolpes. Em 2025 e início de 2026, vimos vários exemplos de atletas que tentaram cinco, seis ou mais tentativas de queda frustradas, apenas para serem liquidados em pé nos rounds finais, quando o tanque de gasolina já estava vazio.
A Evidência Recente
A derrota de Norma Dumont para Joselyne Edwards no UFC Vegas 116 de 2026 foi parcialmente atribuída a uma insistência em clinchar e buscar o chão sem configurar a entrada. A adversária, preparada para esse jogo, defendeu bem e castigou nos momentos de separação, vencendo por decisão unânime. O resultado não foi apenas uma derrota, mas uma exposição de um padrão que se repete.
Como Evitar nos Cards de Maio
Em maio de 2026, Marco Túlio (UFC 328) enfrenta o russo Roman Kopylov, um striker técnico com excelente defesa de quedas (taxa de sucesso de 85%). A abordagem para o mineiro deve ser um jogo híbrido: usar ameaças de queda para abrir sua própria trocação, não o contrário. Nos treinos, priorize a transição da tentativa de queda para combinações de boxe, pegando o adversário de surpresa quando ele espera a queda.
Carlos Prates, no UFC Perth contra Jack Della Maddalena, precisa evitar um cenário semelhante. Prates é um nocauteador, mas se for obrigado a buscar o grappling por desespero, perderá sua maior arma. A lição é clara: a luta no chão deve ser um complemento letal, não o plano A quando o plano A é ineficaz.
Erro 2: Gerenciamento de Distância Ineficiente
O Erro
Muitos brasileiros ainda lutam na distância errada. Ou ficam muito longe, permitindo que o rival controle o centro do octógono e dite o ritmo, ou entram em uma zona perigosa – aquela “terra de ninguém” onde são atingidos por jabs e chutes sem conseguir encurtar. A falta de um jogo de pés sofisticado para cortar ângulos e encurtar com segurança é uma deficiência crônica.
A Evidência Recente
Nas derrotas de Mauricio Ruffy e Rafael Fiziev (parciais para o ranking brasileiro), a incapacidade de encurtar a distância contra oponentes que usavam bem os chutes frontais e laterais foi um fator determinante. O brasileiro aceitava o jogo de longa distância até ser castigado.
Como Evitar nos Cards de Maio
Tallison Teixeira (UFC Macau, 30 de maio) enfrenta Sergei Pavlovich, um gigante russo com poder de nocaute no um‑dois. Para o brasileiro de 1,98 m, a distância ideal é a curta, onde ele pode encaixar seus cruzados. Ele não pode aceitar trocar jabs com Pavlovich na longa distância. Nos camps, o foco deve ser no footwork lateral e nas entradas explosivas com overhands.
Deiveson Figueiredo (também no UFC Macau) é outro que precisa calibrar a distância. Contra Song Yadong, um striker agressivo que avança em linha reta, o brasileiro precisa usar seu jogo de pernas mais dinâmico que marcou sua fase de campeão dos moscas. A “terra de ninguém” contra Yadong será punida com combinações de boxe.
Erro 3: Cutting de Peso Mal Planejado e Recuperação Ineficaz
O Erro
Este é o erro silencioso que mina o desempenho. A cultura do corte de peso extremo ainda persiste, e muitos brasileiros chegam à semana da luta desidratados, frágeis e com a cognição comprometida. A recuperação apressada com soro e carboidratos não restaura totalmente a proteção cerebral momentaneamente perdida, deixando o atleta mais suscetível a nocautes.
A Evidência Recente
Uma análise estatística mostrou que, entre 2022 e 2025, lutadores brasileiros do UFC que cortaram mais de 10% do peso corporal na semana da pesagem perderam por nocaute técnico em 42% dos casos – contra 22% dos que realizaram cortes mais leves. A performance nos rounds 2 e 3 cai vertiginosamente.
Como Evitar nos Cards de Maio
O card do dia 16 de maio, o Netflix MVP: Rousey vs. Carano, é historicamente para pesos‑pesados e casados, mas a presença de Philipe Lins e Júnior Cigano reforça a necessidade de uma gestão de peso adequada. Cigano, que retorna após um longo hiato, não pode se dar ao luxo de chegar desgastado. Sua equipe deve monitorar a composição corporal com antecedência, chegando à semana da luta com, no máximo, 5-6% de peso a cortar. Para os cards do UFC 328 e 30 de maio, o alerta é generalizado. O corte de peso planejado com meses de antecedência, com acompanhamento nutricional, é imperativo.
Erro 4: Rigidez Tática e Falta de Ajustes em Tempo Real
O Erro
Lutadores brasileiros muitas vezes entram com um plano de jogo fixo e, quando a realidade do octógono se revela diferente, não conseguem se adaptar. Se o plano A era pressionar e o adversário está contra‑atacando com perfeição, a insistência teimosa leva à derrota. A capacidade de ler o confronto e mudar a estratégia entre os rounds é o que separa os bons dos ótimos.
A Evidência Recente
A derrota de Jafel Filho no UFC Vegas 116 foi um exemplo dessa rigidez: ele continuou marchando para a frente contra um oponente que estava claramente recuando e pontuando. Os córneres brasileiros, por vezes, não fornecem dados técnicos suficientes entre os rounds.
Como Evitar nos Cards de Maio
Júnior Cigano (Netflix, 16/05) é um veterano que sempre foi um boxeador puro. Contra Robelis Despaigne, um cubano explosivo que lança bombas, Cigano precisará adaptar seu jogo: se o adversário vier com tudo no primeiro minuto, ele deve circular e usar seu jab para minar o ímpeto. Ajustes em tempo real são mandatórios. Sua equipe deve ter um “plano B” claro, que pode ser um jogo de clinch para desgastar o gigante cubano.
Kendry Páez (caso escale para o UFC Macau) e outros estreantes devem ser treinados para fornecer feedback claro aos córneres. Um córner que apenas grita “vamos lá” não está fazendo seu trabalho. Informações sobre o alcance, a postura defensiva do oponente e as oportunidades de entrada devem ser passadas em voz alta e clara.
Erro 5: Descontrole Emocional e Pressão do “Peso da Bandeira”
O Erro
A torcida brasileira é apaixonada, e a expectativa de vitória pode virar um fardo. Muitos atletas entram no octógono querendo “honrar a pátria” a qualquer custo, o que leva a decisões precipitadas, brigas desnecessárias e um gasto energético enorme nos primeiros minutos. O excesso de vontade pode se traduzir em perda de foco tático.
A Evidência Recente
A performance de alguns brasileiros em cards de fevereiro e março de 2026 mostrou sinais desse descontrole: socos no vácuo, quedas forçadas no clinch sem preparo, e uma visível frustração quando o nocaute não vinha rápido. A produção de sangue e a vibração da torcida às vezes aceleram o ritmo para um nível insustentável.
Como Evitar nos Cards de Maio
Marco Túlio no UFC 328, lutando no exterior, estará mais isolado – o que pode ser uma bênção. Ele precisa tratar a luta como um confronto tático, não como uma guerra de orgulhos. Exercícios de respiração e visualização pré‑luta, aliados a um córner que mantenha a calma, são ferramentas vitais. A energia da torcida deve ser um combustível, não um incêndio.
Para Carlos Prates em Perth, na Austrália, o fator “inimigo estrangeiro” pode ser um motivador positivo ou um veneno. Se ele entrar excessivamente pilhado para silenciar a torcida local contra Della Maddalena, poderá cometer erros de footwork. A estratégia emocional é clara: canalizar a pressão em foco, não em raiva.
Os Card de Maio 2026 que Exigem Correção
| Data | Evento | Brasileiros em Ação | Erro mais provável a ser evitado |
|---|---|---|---|
| 2 de maio | UFC Perth | Carlos Prates | Erro 1: Dependência de grappling se o striking falhar; Erro 2: Distância contra Della Maddalena |
| 9 de maio | UFC 328 | Marco Túlio, Djorden Santos, Daniel Willycat | Erro 5: Pressão emocional e rigidez tática em card numerado |
| 16 de maio | Netflix MVP | Philipe Lins, Júnior Cigano, Aline Pereira, Adriano Moraes | Erro 3: Corte de peso e recuperação; Erro 4: Ajustes táticos contra estilos únicos |
| 30 de maio | UFC Macau | Deiveson Figueiredo, Tallison Teixeira | Erro 2: Gerenciamento de distância; Erro 5: Pilha emocional em luta de alto risco |
Um Guia Rápido para a Redenção Tática
| Erro | Como Corrigir | Ferramenta Prática |
|---|---|---|
| Grappling excessivo sem preparo | Usar quedas como isca para conectar golpes; melhorar wrestling defensivo | Sparring híbrido (MMA sparring com foco em transições) |
| Distância ruim | Treinar footwork com cones; estudar o alcance real do oponente | Análise de vídeo com métricas de entrada |
| Corte de peso mal planejado | Iniciar o camp dentro de 8% do peso‑alvo; contratar nutricionista especializado | Monitoramento diário de composição corporal |
| Rigidez tática | Simular cenários de adversidade no sparring; córner com plano B escrito | Checklists de intervalo baseados em dados |
| Descontrole emocional | Sessões de psicologia esportiva; controle de respiração antes da entrada | Apps de biofeedback e meditação guiada |
A Grande Lição de Maio 2026
O talento brasileiro nunca esteve em questão. O que as últimas temporadas do UFC mostraram é que o detalhe – a borda fina entre o instinto e a disciplina – está fazendo a diferença nas decisões dos juízes e na cronometragem dos nocautes. A geração que entrará nos octógonos de maio de 2026 tem a oportunidade de mostrar que aprendeu com os tombos dos veteranos e que o Brasil não é apenas um celeiro de campeões, mas uma fábrica de lutadores completos: taticamente fluidos, fisicamente recuperados e emocionalmente blindados.
Que os cards de maio sejam o palco da correção.
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